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Garotas como Clarice, não eram apenas garotas.

Do alto da escada ele a viu, sentada no último degrau com uma foto em mãos, sozinha. Ela estava quieta, chorando em silêncio para que ninguém a ouvisse. Entre as tantas lágrimas que rolavam em seu rosto, surgiu um pequeno sorriso no canto dos lábios, como se aquela foto tivesse lhe trago boas lembranças. Era um sorriso triste que logo desapareceu. Partia seu coração vê-la desse jeito. Garotas como Clarice não mereciam chorar. Ela era como o primeiro raio-de-sol que surgia após a tempestade, a luz que avisava que o tempo ruim estava no fim. Garotas como Clarice distribuía esperança, criava sonhos, fazia monstros amarem. Garotas como ela não deveria nunca experimentar a dor.
Ele desceu cada degrau com cuidado para não assustá-la e sentou ao seu lado. Clarice o olhou, mas não lhe deu muita atenção. Seu coração ainda estava preso no garoto da foto, que a abraçava como se a amasse de verdade.
- Você acredita em anjos? – perguntou Peter, sussurrando.
- Anjos? – ela refletiu por alguns segundos, enquanto olhava seus olhos. – Não. Eu já não acredito em mais nada.
Ela abaixou a cabeça, como se sua última frase tivesse a feito se sentir fracassada. Garotas como Clarice não deveriam parar de sonhar.
- Certa vez eu conheci um anjo.
Ela sorriu com ironia e limpou as lágrimas com as costas das mãos.
- Não é verdade. – disse incrédula ao ouvir tamanha estupidez. – Anjos não existem.
- Como não? Eles existem e eu conheci um. Era um anjo em formato de mulher. Na verdade, acho que ela era a rainha dos anjos, porque sua beleza era extremamente encantadora. Eu também mal acreditei quando a vi, mas era tão real. Eu sentia, sabe? Eu sentia que não era um sonho, porque ela me doía por completo.
- Como assim doía? Todos falam que anjos são bons. Ela não deveria te fazer sofrer, deveria?
- Não, não. Ela não me trazia sofrimento, ao contrario, ela me salvou quando nada mais no mundo poderia me salvar. Eu estava à beira da morte e ela me apareceu, assim, como um passe de mágica e me tirou do lugar mais sombrio que eu já estive. Ela me olhava como se quisesse estar comigo. Mas ela nunca ficou comigo por muito tempo. Ela me salvou, me deu a vida e depois a tirou de mim. E por isso doía. Doía-me por não poder tê-la para sempre.
Clarice já não conseguia tirar os olhos dele. Aquele garoto parecia tão sincero em suas palavras, como se cada uma delas viesse de seu coração. Peter contava a historia com cuidado e com calma, como se não quisesse deixar nenhum detalhe passar.
- Você está inventando. Isso é impossível.
- Eu também achava que era. Era difícil acreditar que tinha um anjo ali, bem na minha frente, me fazendo ser o cara mais feliz só com um olhar.
- E como ela era? Ela tinha asas?
- Não. Mas ainda assim conseguia me fazer voar. – ele respirou fundo – Sabe, eu havia perdido minha mãe, meu pai me culpava por isso e ninguém estendia a mão para me levantar. Ao contrario, eles me chutavam quando eu já estava caído. A morte já estava como uma opção e parecia ser a melhor escolha. Estava tudo planejado. Eu havia desistido de viver. Afinal, qual é o sentido disso tudo? Não há. Não havia sentido algum. Então estava tudo certo: a hora, o local, o modo. E foi aí que o anjo apareceu.
- Isso... Isso é... Isso é sério? Eu não sabia dessas coisas. Você sempre me pareceu tão feliz. Desde a primeira vez que nos encontramos, eu só te vejo sorrindo.
- Porque eu sou feliz. Bem, agora eu sou. Foi essa anjinha que me salvou. Ela era doce, sua voz era como uma bela melodia. O seu toque, o seu cheiro, o seu jeito de falar. Estava na cara de que ela era um anjo, mas ninguém sabia disso, embora seu sorriso a entregasse por completo. Ela não disse nada quando me viu prender o choro, mas, ainda em silêncio, ela me perguntou o porquê de tanta tristeza. Foi como se... Como se... Eu não sei descrever, mas foi tão incrível. O modo como ela fez me sentir naquele momento, nada poderá explicar, jamais. E eu encontrei tantos motivos para viver, uma força surpreendente para lutar. Então eu sorri, sabe? E sempre que eu a vejo, eu sorrio. – Peter sorriu ao dizer a última frase, olhando fixamente os olhos de Clarice.
- Mas você disse que ela te tirou a vida, depois. Você não podia tê-la perto de ti.
- Ela havia se tornado a minha vida e eu não podia tê-la em meus braços. Era errado até sonhar com ela, era errado imagina-la comigo. “Eu não posso tê-la. Eu não posso. Eu não posso. Eu não devo”, repetia para mim mesmo todos os dias. Mas só em vê-la, me esquecia disso e de tudo. Eu só lembrava à noite, quando a brisa insistia em me sufocar com sua ausência. E ainda assim, eu era o cara mais feliz. Porque no outro dia, eu podia vê-la sorrir.
- Isso é tão triste e ao mesmo tempo tão belo. Eu sei o que é amar alguém e não poder ficar com ele. – disse Clarice, retornando o olhar para a foto e deixando uma lágrima cair de seus olhos ao se lembrar do que aconteceu. – Eu tinha alguém que era como um anjo para mim. E eu o perdi.
- Não. Ela não era como um anjo. Ela realmente é um. Mas ninguém sabe disso. Ninguém mesmo, nem ela. Só eu. Eu queria poder mostra-la o quanto ela é especial, queria poder dizer a ela o quanto ela significou para mim e como o seu sorriso faz milagre. Até que um dia eu a vi chorando, sozinha, por causa de alguém que nunca a viu do modo que eu vi. Alguém que a machucou e nem se importou. Ela... Ela é um anjo! Aquele idiota não podia tê-la feito chorar.
- E o que você fez? Você a salvou também?
- Não. Só anjos podem salvar e eu estou longe de ser um. Mas eu não podia deixa-la daquele jeito, sem saber da sua importância, sem saber que é um anjo. Eu fui até ela e perguntei se ela acreditava em anjos. Mas ela é tão boba que me disse que eles não existiam e que ela não acreditava mais nada. Disse até ser impossível quando eu confessei que já havia conhecido um.
Clarice o olhou atentamente, paralisada. Ela não sabia se sorria ou se chorava. Ela queria o abraçar, mas não sabia se podia. Ela. Era ela. Clarice era um anjo. Não do tipo que voa, mas do tipo que faz voar. Clarice era a salvação. Clarice era o tudo de alguém que não era nada para ela. E foi nesse momento que as borboletas encontraram um novo lugar para morar: dentro da pequena anjinha.

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