Pular para o conteúdo principal

Tira a cortina para poder ver o céu.

- Você não vai ver o sol se colocar cortinas na sua janela. – disse. Ele não entendeu.
Estava de noite, chovia forte lá fora e estávamos deitados embaixo das cobertas no quarto escuro, onde a única luz era dos relâmpagos. Ele olhou estranho para mim e sussurrou baixinho: precisa parar com tanto café, está te deixando meio louca. Ele riu irônico e virou para o outro lado, como se não quisesse entender o que eu havia falado. Eu o abracei, um pouco triste. Não havia sol, mas ele já colocava cortinas.
- Você odeia a escuridão, não é?
- Sim, Nina. Escuridão rima tanto com solidão que tenho medo. – admitiu, colocou uma de suas mãos por cima da minha e fez um carinho bom nela. – Sabe que eu não aguentaria viver sozinho.
- Está tão escuro lá fora. Mas logo passa. Há sempre o sol depois de cada tempestade, não é mesmo? A noite termina e o dia aparece, cheio de luz, de pássaros, céu azul de anil, dá vontade de viver, né? Mas, se você quer tanto fugir da escuridão, porque se esconde da luz? Por que não deixa o brilho do sol entrar e tocar o seu rosto, te mostrando outras oportunidades, outros sonho? Você põe cortinas antes do dia nascer, como se tivesse medo, como se não quisesse ser iluminado.
- Só me deixa dormir.
- Quando dormimos, estamos fugindo. E cortinas nos evita de acordar. Não há como ser feliz se fugir da luz. Se você só dormir... Só dor, só ir.
Ele adormeceu entre uma frase e outra, sem dar importância ao que eu falava. Coisas loucas, sem sentido, ele não entendia. Mas não se tratava apenas de cortinas, sol e chuva. Só entende quem foge, ou quem tenta encontrar a luz. Há muita coisa atrás das linhas, há entrelinhas.

Comentários